“Upload” e “Jogador N°1”: só o virtual salva (?)

Escrito por em 22 de maio de 2020

Por David José de Andrade Silva

A série “Upload” (2020) e o filme “Jogador N°1” (2018) apresentam um futuro onde os altos aparatos tecnológicos e recursos financeiros, ao invés de serem utilizados para a redução das desigualdades sociais, repaginam a realidade em um ambiente virtual que, apesar da aparentar ser fabuloso, reproduz os problemas com os quais os cidadãos médios (e principalmente os que estão na linha bem abaixo da média) convivem. Essas produções levantam, então a questão: se o mundo concreto não tem salvação, devemos migrar para o mundo digital?

No início dos anos de 1980, ainda sob a ressaca da Guerra Fria, os avanços tecnológicos nem sempre foram romantizados como ocorreu em “Blade Runner – O caçador de androides” (1982), quando robôs lutam para continuar existindo, ou “Tron uma odisseia eletrônica” (1982), que trouxe a primeira aventura com estética atraente no universo digital. O medo do poder destrutivo da tecnologia, motivado pela corrida nuclear, é retratado em “Jogos de Guerra” (1983), e a esperança de que as forças da natureza prevaleceriam sobre os avanços tecnológicos, sutilmente abordado em “Gremlins” (1984) e escancaradamente em “Gremlins 2: A nova geração” (1990). Antes da virada do milênio, parecia que “Matrix” (1999) incutiria, no mínimo, uma desconfiança sobre a relação humanidade-máquina, ainda mais com o desenvolvimento galopante da internet. Contudo, parece que a vida real é tão desinteressante, cruel e ruim que o melhor mesmo é sair daqui.

“Upload” (já abordado no texto http://educadora.fm.br/2020/05/upload-e-a-subcidadania/), série lançada recentemente pela plataforma Amazon Prime Video, traz a ideia futurística de um hotel virtual para onde uma pessoa no leito de morte pode transferir sua consciência e desfrutar de serviços diferenciados e produtos exclusivos (se tiver dinheiro, tal qual em vida!). Afinal, por que finalizar um ciclo de existência se é possível, por meio da realidade virtual, permanecer usufruindo das benesses que uma conta corrente polpuda pode oferecer? O detalhe é que o poder do capital tem menos barreiras nesse ambiente porque, afinal, como diria aquela personagem do programa humorístico, “Tô pagando”.

“Jogador N°1” (2018) tem praticamente a mesma premissa, com a diferença dos usuários do serviço digital estarem vivos. O Oásis, universo virtual criado para ser uma versão nerd do Second Life, apresenta-se com um paraíso para que qualquer pessoa desfrute e seja quem sempre quis ser, ou seja, realizar os sonhos que, na vida real, não sejam possíveis. Infelizmente, Steven Spielberg, notório na retratação dos horrores da Segunda Guerra Mundial, sequer aprofunda a condição social do protagonista Wade Watts (interpretado por Tye Sheridan), que parece ser indiferente à favela onde vive porque, afinal, o que importa é conseguir moedas no Oásis para comprar um easter egg, como o “cubo Zemeckis”.

Desde a invenção da roda e do domínio do fogo, creio que a humanidade não para de se encantar com sua própria capacidade de construir, de agir sobre a natureza e moldá-la de acordo com seu querer. Por isso, abrir mão dessa capacidade de construção por um devaneio em uma realidade à parte, é entregar-se à alienação e desistir de construir um mundo socialmente mais justo.

David José de Andrade Silva é Mestre e Doutor em Letras pela Universidade Federal do Paraná, professor de Língua Inglesa e Língua Portuguesa pelo Instituto Federal do Paraná – Campus Jacarezinho e um dos apresentadores do programa Educadora Pop.


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