“Upload” e a subcidadania

Escrito por em 8 de maio de 2020

Por David José de Andrade Silva

 O Prime Video, serviço de streaming da Amazon, acaba de lançar sua mais nova série original lakde comédia de ficção-científica: “Upload”. A história se passa em 2033, quando já é possível contratar serviços para transferir todas as memórias de uma pessoa morta para um ambiente virtual e convertê-las em um avatar (geralmente baseado nas próprias características físicas do período em vida), que poderá interagir com outros avatares, sejam eles de pessoas mortas ou não.  Embora se pareça muito com “Black Mirror”, seu primo mais famoso e longevo, dentre os vários assuntos instigantes que a nova série toca, uma merece destaque: a subcidadania.

 A série apresenta o protagonista Nathan Brown (Robbie Amell), um programador de classe média baixa que, juntamente com seu sócio Jamie (Jordan Johnson-Hinds), estão desenvolvendo e negociando um novo produto que, ao longo dos 10 episódios, são melhor explicados. Logo no primeiro capítulo, Nathan sofre um acidente de carro suspeito e é levado por sua namorada rica Ingrid Kannerman (Allegra Edwards) ao hospital quando, na insegurança de ter chances concretas de sobrevivência, resolve transferir sua mente para o serviço de hotelaria Lake View. Nesse instante, já é posto que essa alternativa só poderia ser viável graças às condições financeiras de Ingrid, embora Nathan não fosse necessariamente pobre.

A coprotagonista é Nora Antony (Andy Allo), funcionária da empresa Horizen, desenvolvedora da plataforma pós-vida Lake View. Sua rotina é descrita como a de tantos bilhões trabalhadores e trabalhadoras ao redor do globo: mora em um apartamento pequeno e precário; usa transporte público lotado para chegar ao trabalho; sofre assédio moral de sua chefe constantemente. O detalhe sórdido é ela ter que trabalhar como “anjo”, uma assistente para atender aos pedidos dos hóspedes do hotel, e não ter acesso, na vida real, a praticamente nada do que ela fornece aos seus clientes na vida real.

Em Lake View, durante seu turno de trabalho, Nora é responsável por auxiliar Nathan e, desse encontro, nasce uma relação verdadeira em um mundo feito de códigos binários. Enquanto o recém-morto se adapta para aceitar a nova vida (discussão que vale a pena ser desenvolvida em outro momento), a assistente investe seus sentimentos nessa empreitada que seria algo mais concreto do que ela havia experimentado até então. Nesse processo, Nora mostra para Nathan o andar mais profundo do hotel, conhecido como 2 Giga, onde as pessoas só possuem essa quantidade de dados para passar o mês. Quando ultrapassam o limite, os avatares travam e só conseguirão ser reiniciados no próximo mês.

Embora os habitantes do 2 Giga não sejam recorrentes nos capítulos, pois a série foca na parte abastada do hotel (e também nas diferenças de acessos a bens entre ricos, milionários e bilionários), fica clara a crítica que o mundo virtual reproduz as desigualdades sociais do mundo real. Não somente isso, mas escancara o que, o tempo todo, não queremos ver nem admitir: que existem pessoas subcidadãs ao nosso redor. Uma pessoa que precisa sobreviver com 2 gigabytes em Lake View é o mesmo desafio que alguém tem que superar no Brasil ganhando menos de um salário mínimo por mês, algo piorado com o recente desaquecimento da economia e a imperícia governamental para lidar com o problema. Se é chocante saber que muitos não conseguem receber o Auxílio Emergencial (R$600 ou R$1.200, dependendo do caso) por não ter um telefone celular, o que dizer daqueles que nem têm a informação de que essa ajuda existe?

“Upload” é inspirada no “American way of life” e, por isso, as noções de sucesso, fracasso, riqueza e pobreza estão um pouco distantes (e românticas) dos problemas que tentamos ignorar em nosso país, principalmente no que concerne aos mais necessitados. Nathan e Nora, tanto em vida quanto na realidade virtual, sabem o que é ter comida na mesa, um teto e um trabalho, requisitos mínimos para sentir-se cidadão e cidadã. É preciso repensar a sociedade para não se multiplicarem espaços como o 2 Giga na vida real.

David José de Andrade Silva é Mestre e Doutor em Letras pela Universidade Federal do Paraná, professor de Língua Inglesa e Língua Portuguesa pelo Instituto Federal do Paraná – Campus Jacarezinho e um dos apresentadores do programa Educadora Pop.


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