Jack Ryan: o salvador imperialista do autoritarismo?

Escrito por em 27 de fevereiro de 2020

Por David José de Andrade Silva*

As produções de primeiro escalão do entretenimento audiovisual estadunidense são geralmente imbuídas da megalomania característica de uma nação que se orgulha da posição política e econômica estratégica em nível global. Independentemente de as histórias se passarem na Antiguidade Clássica, na Idade Média ou na Idade Moderna, as produções espelham o desejo subliminar de convencer a audiência a consumir a ideologia norte-americana, seja com um discurso grandiloquente, como “Game ofThrones”, ou por meio de comédias de costumes, como “The Big BangTheory”. “JackRyan”, série original da Amazon, eleva esse patamar a um novo nível em sua segunda temporada.

Após impedir um atentado terrorista na primeira temporada, Jack Ryan (vivido por John Krasinski) se envolve em uma nova trama, desta vez na América do Sul, mais precisamente na Venezuela, país que esteve praticamente o ano de 2019 inteiro nas manchetes jornalísticas devido à crise econômica e à ebulição social. O presidente fictício, Nicolas Reyes (JordiMolla), é retratado como um líder sem escrúpulos que não mede esforços para se manter no poder quando vê a possibilidade de perder sua posição democraticamente para Gloria Bonalde (Cristina Umaña). Embora o roteiro tente nos vender uma motivação pessoal para justificar as ações de Ryan, ao olharmos mais atentamente, percebemos o latente sentimento imperialista dos EUA no núcleo do herói, com direito a tiroteio e resgate de helicóptero no episódio final. Ou seja, tudo o que o Capitão América de Chris Evans conseguiu desconstruir da imagem intervencionista e retórica belicosa em uma década (angariando muitos simpatizantes da bandeira estrelada branca, azul e vermelha), Jack Ryan jogou pelo ralo.

É quase impossível não associar o papel dos EUA no processo de ascensão das ditaduras na América do Sul nos anos de 1960, com ajuda financeira e inteligência (diga-se CIA, agência à qual Jack Ryan está vinculado). A sede de controle absoluto pelo destino do mundo e impedir o avanço de alianças com a União Soviética durante a Guerra Fria tornou-se a maior fábrica de atrocidades e regimes totalitários cujos reflexos até hoje ecoam em muitos países. Não satisfeito, o governo estadunidense continuou com sua política belicosa patrocinando e treinando militares nos anos de 1980, os quais, por ironia do destino, se tornariam suas principais ameaças, como ocorreu no Afeganistão e no Iraque. Parece que há orçamento sobrando na Casa Branca para bancar problemas que ocorrerão dali duas décadas. Com o perdão do trocadilho, é o famoso “investimento de alto risco”. Infelizmente, ao contrário das nuances trabalhadas na primeira temporada, o vilão Reyes é monocromático e pouco se explora das razões que levaram a Venezuela, mesmo a fictícia, ao caos. O papel dos países ditos “desenvolvidos” na exploração dos ditos “periféricos”, por exemplo, é simplesmente ignorado, como a estratégia de promover a queda abrupta no barril do petróleo para abalar um país que estava finalmente experimentando alguma evolução na distribuição de renda.

Aliás, o intervencionismo dos EUA em nenhum momento é apresentado com um mínimo de constrangimento, como se realmente fosse normal uma nação soberana ser subserviente a uma agenda externa. O plano para derrubar o presidente venezuelano é apoiado pelo chefe com a desculpa de “já ter perdido o cargo”. Entre voltar para o país natal após resgatar prisioneiros de guerra e pegar metralhadoras para invadir o Palácio de Miraflores, a segunda opção é muito mais interessante. E antes que bocas comecem a espumar de raiva, é óbvio que o personagem de Reyes provoca asco e revolta para qualquer pessoa minimamente esclarecida e defensora de um estado democrático de direitos. O que não dá para aguentar é bater palmas para quem mais instituiu ditadores no mundo como se fosse o salvador da pátria. Espero que a terceira temporada seja um problema caseiro e que, por favor, não seja com imigrantes. Está na hora de Jack Ryan utilizar suas habilidades para impedir a corrupção em Las Vegas, em Boston, em Wall Street…

David José de Andrade Silva é doutor e mestre em Letras pela Universidade Federal do Paraná, professor do IFPR Campus Jacarezinho e um dos apresentadores do programa semanal Educadora Pop.


Opinião dos leitores

Deixe uma resposta


Educadora 90.9

Jacarezinho

Current track

Title

Artist

     Uma Emissora da Rede Educadora de Comunicação e Evangelização.

Background