“Drácula” e a malignidade que nos seduz

Escrito por em 16 de janeiro de 2020

Por David José de Andrade Silva*

O personagem Conde Drácula foi adaptado novamente na minissérie “Drácula” (2020), produzida pela britânica BBC One e a americana Netflix, cujo protagonista é vivido pelo ator ClaesBang e sua opositora, Agatha Van Helsing/ Zoe Van Helsing, é interpretada por Dolly Wells. Contudo, ao invés de desenvolver sua narrativa com o clássico embate maniqueísta entre as forças do bem contra o mal, os roteiristas optaram por uma tendência na última décadade relativização da maldade que tem dominado o cenário pop.

A história da série inicia no final do século XIX a partir dos relatos de Johnathan Harker para a Irmã Agatha Van Helsing, descrevendo o período em que ficou alojado no castelo do Conde Drácula, as transformações que percebeu em seu corpo e em seu anfitrião e as estranhas ocorrências que testemunhou até sair do local e ser encontrado no convento. Harker, o herói na versão original escrita por BramStoker, demonstra ser um personagem virtuoso, mas um oponente fraco para o vilão. Por sua vez, Van Helsing ganha a simpatia do público com sua sagacidade e acidez, tendo um comportamento mais próximo de uma anti-heroína que de uma heroína. A personagem, apesar de ser uma freira no ano de 1897, poderia ter suapersonalidade facilmente comparada à de uma “youtuber” que, para “causar”, profere considerações sobre sua religião de forma despojada e ousada. A atualização do texto para dialogar com a audiência da segunda década do século XXI é sempre bem-vinda, mas obviamente incorrerá em discrepâncias contextuais históricas. O que nos leva ao protagonista.

A construção da personalidade de Drácula investe no sarcasmo, no charme e na frieza de tal forma que, mesmo tratando humanos puramente como alimento, não duvidaria alguém dizer enquanto assiste aos episódios “Esse cara é massa!”. O conde não mede esforços para atingir seus objetivos, seja por meio da mentira, da manipulação, do homicídio, do assédio sexual… Se estamos, ao menos no Brasil, testemunhando a ascensão dos “cidadãos de bem” ao poder, como compreender o fenômeno da admiração de vilões independentemente da filiação política? Embora seja um tema complexo, uma das respostas pode ser encontrada na própria Bíblia, mais precisamente na narrativa de Adão e Eva. Desde os primórdios da humanidade, o proibido é atraente, o maligno encanta. A diferença que percebo nos últimos tempos são duas. Por um lado,os heróis estão sendo substituídos por anti-heróis, ou seja, a bondade e a compaixão têm menos valor do que a capacidade de realizar ações imorais (em uma perspectiva cristã). Por outro lado, os representantes do mal ganham novas camadas que relativizam suas atitudes e justificam o caminho que foram forçados a seguir.

Arriscaria afirmar que desde “Shrek” (2000) o paradigma dos filmes e séries repaginou a relação entre bem e mal. Após um ogro verde e feio utilizar a metáfora da cebola para demonstrar que as aparências podem esconder a verdadeira essência de alguém e os problemas causados pelos julgamentos precipitados, faltaria pouco para transformar o que era essencialmente ruim em algo aceitável, até mesmo admirável. Como não gostar de “Dexter” (2006-2013), um serial killer que fazia os monólogos mais divertidos enquanto serrava corpos? Quem melhor do que a maravilhosa Angelina Jolie para nos convencer a gostar de “Malévola” (2014) e acreditar no seu ponto de vista da história? O que dizer do próprio Darth Vader que, no episódio “Star Wars – A Vingança dos Sith” (2005), nasce por seu amor incondicional (e doentio) pela Princesa Amidala? E o Coringa? O palhaço psicopata conseguiu eclipsar o herói em praticamente todas as suas versões cinematográficas e, na sua mais recente aparição (2019), obteve reconhecimento de público, bilheteria (fez mais de US$1 bilhão) e crítica (indicação a 11 Oscars e Globo de Ouro de melhor ator).

Poderíamos listar muitos outros exemplos para ilustrar a discussão que trago, mas creio que a proposta de reflexão esteja clara. A tão aclamada “zona cinzenta” que aprofunda e cria nuances na personalidade e atitude dos personagens fictícios está praticamente acabando com as virtudes heroicas que ajudavam a diferenciar o bem do mal. Embora compreenda que a sociedade seja complexa, penso ainda ser preciso a manutenção de figuras que expressem valores como bondade, honestidade, lealdade, compromisso e compaixão. O universo das produções audiovisuais têm um impacto muito grande no imaginário do público e a predominância de anti-heróis e vilões simpáticos, ao meu ver, não poderiam ser as principais inspirações para uma sociedade mais justa e fraterna. A não ser que admitamos que isso não nos representa mais.

David José de Andrade Silva é doutor e mestre em Letras pela Universidade Federal do Paraná, professor do IFPR Campus Jacarezinho e um dos apresentadores do programa semanal Educadora Pop.


Opinião dos leitores

Deixe uma resposta


Educadora 90.9

Jacarezinho

Current track

Title

Artist

     Uma Emissora da Rede Educadora de Comunicação e Evangelização.

Background